ARTIGO

 

RACISMO E COTAS = IGNORÂNCIA

 

A ciência diz que nossos mais remotos ancestrais, os Australopithecus Afarensis, viveram há 3,5 milhões de anos nas savanas da África. Depois seguiram pelo caminho do Rio Nilo (Egito) chegando ao Oriente Médio e à China. Eles usavam as mãos e os pés para pular de galho em galho, exatamente como os macacos de hoje. O fóssil mais antigo encontrado na Etiópia (África), em 1974, era de uma fêmea. Ela é considerada, pela ciência, a mãe da humanidade. Portanto, pode-se dizer que, até prova em contrário, todos nós somos afro-descendentes...
Quando os continentes se separaram, muitas tribos e membros ancestrais dos Australopithecus se perderam. Cada um sobreviveu como pôde. O macaco que lhes deu origem, (se foi um macaco branco, dourado, vermelho ou preto) os cruzamentos sexuais que realizaram, o frio, o calor, as condições geográficas, a maneira como cada descendente passou sua experiência para o outro, a quantidade de melanina (substância que determina a cor da pele) no corpo, os alimentos que comiam, a luta pela sobrevivência, etc determinaram as características de cada um.
Uns ficaram mais baixos, outros mais altos; uns ficaram mais claros, outros mais escuros; uns ficaram mais gordos, outros mais magros; uns ficaram mais violentos, outros mais dóceis... Quando conseguiram inventar meios de se locomover de um continente a outro, essas tribos se encontraram novamente. Fascinados pela “diferença”, cruzaram-se sexualmente. Nasceram outros seres humanos com diversas outras características, mas todos da mesma espécie. Portanto, pode-se dizer que, até prova em contrário, não existem raças, mas apenas a espécie humana e suas variações...
Todos nós nascemos em condições idênticas de nos tornarmos médicos, engenheiros, artistas, intelectuais, professores, presidentes da República, etc. O que nos impede são as condições adversas que enfrentamos na vida: o desemprego, a miséria, a falta de escolas e universidades públicas adequadas, os baixos salários, etc. Não tem nada a ver com cor da pele ou etnia...
O medo, o preconceito e o racismo, sempre foram usados para justificar e/ou legalizar o domínio de uma nação ou de um homem sobre o outro; para esconder interesses ocultos dos poderosos de plantão ou disfarçar os verdadeiros motivos da desigualdade social. Sempre há alguém que, por ser mais “forte”, se acha no direito de escravizar ou explorar o outro, supondo superioridade...


Há alguns exemplos bem antigos na história. No ano de 1.500 Antes de Cristo, algumas tribos de nômades arianos (germanos) invadiram a Índia e dominaram a população nativa. Dividiram a sociedade em castas e proibiram a mistura e o casamento de pessoas de castas diferentes. As duas castas que se achavam superiores, os brâmanes (sacerdotes) e os xátrias (guerreiros), eram arianos; a casta média, os vaisias (comerciantes, agricultores e artesãos) também eram arianos e a casta mais baixa, os sudras, (trabalhadores braçais) eram nativos. Como não podiam dar uma explicação científica para o “preconceito”, trataram de arrumar uma justificativa “religiosa”. Instituiu-se que os homens haviam nascido de Brama (Deus) e a divisão natural seria a seguinte: os brâmanes teriam saído de sua cabeça; os xátrias, de seus braços; os vaisias, de seu ventre; e os sudras, de seus pés...


No século 15, no ano de 1.500 Depois de Cristo, a situação não mudou. Os “nobres portugueses” e depois outros “nobres europeus” invadiram o Brasil e descobriram que se tratava de uma terra muita rica. Como não gostavam de pegar no pesado —porque se achavam superiores—resolveram mandar os índios nativos trabalharem para eles. Como os índios não estavam acostumados a serem empregados e muitos menos escravos, rebelaram-se. Começou a matança. Foram milhões de índios mortos... Resolveram, então, trazer negros da África para realizar o trabalho pesado. Como os negros também se revoltaram começou, de novo, a matança. Milhões de negros foram mortos e outros escravizados... Além disso, os “nobres” trouxeram mulheres “brancas” para se casarem, mas dormiam com as negras e com as índias, formando uma população absolutamente mestiça...


No século 21, nada mudou. Em setembro de 2005, um ex-secretário de Educação Norte Americano fez uma declaração absurda de que o aborto de bebês negros diminuiria a criminalidade nos Estados Unidos...
Durante vários séculos, governos, cientistas, pensadores, religiosos, etc tentaram de todas as formas justificar suas atrocidades dizendo que havia uma “raça superior” —a européia—, que deveria civilizar e ensinar os costumes e os mandamentos cristãos às outras “raças inferiores”: negros, índios, judeus, árabes, muçulmanos, ciganos, etc a qualquer custo...
O ser humano é o único animal que consegue sobreviver em todos os ambientes, mas não consegue conviver, em paz, com seus semelhantes.
 
O pior exemplo de preconceito racial que o mundo conheceu foi, sem dúvida, o que acabou gerando a Segunda Guerra Mundial.
No século 20, em meados de 1930, a Alemanha vivia uma crise econômica sem precedentes. O número de desempregados era enorme. A carestia incomodava a classe média e os trabalhadores. Adolf Hitler consegue convencer muita gente de que a culpa era dos judeus, dos comunistas, dos homossexuais, dos ciganos e dos deficientes físicos que, segundo ele, eram escórias da sociedade e tomavam os empregos dos alemães... Depois de muita batalha, Hitler obtém cidadania alemã (era austríaco) e após várias tentativas é indicado para Chanceler Alemão.
Para justificar suas idéias preconceituosas (queria uma “raça” só de brancos) e conseguir mais poder, manda atear fogo no Parlamento Alemão e põe a culpa nos judeus e nos comunistas. O partido nazista dá incentivo econômico a investidores estrangeiros... “A vontade nacional alemã” de se livrar das sanções impostas pelo Tratado de Versalhes (por causa da Primeira Guerra Mundial) é disseminada... Hitler “convence” o Presidente e o Congresso de que precisa de poder total para por “ordem” no país... O direito de redigir leis passa do Presidente para o Chanceler Hitler... Exerce, então, o controle total sobre a liberdade de expressão, de associação e de imprensa que são temporariamente suspensas... Marca os Judeus com a estrela de David e diz que todos deveriam ser exterminados para limpar o país da sujeira... Deflagra a Segunda Guerra Mundial resultando numa matança de 50 milhões de pessoas: 23 milhões de civis, 20 milhões de militares, 6 milhões de judeus sendo muitas crianças e 1 milhão entre Testemunhas de Jeová, homossexuais, ciganos e comunistas...
 A disputa colonial, a concorrência econômica, o “nacionalismo”, o preconceito racial, a ganância, a luta por mais poder, mais territórios e petróleo, etc., fez do século 20 uma sucessão de guerras e conflitos. No início do século, 1 milhão e 500 mil armênios são exterminados na Turquia Otomana... 1 milhão e 200 mil tibetanos são mortos pela China... Os Estados Unidos—que se acham os donos do mundo— estão presentes em quase todas as guerras, matando, treinando ou vendendo armas... Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMC), do que se pôde constatar no século 20, as guerras mataram 191 milhões de pessoas...
Há quem estimule o preconceito e a divisão da sociedade. Quem faz as leis, já as faz pensando na divisão e na suposta “superioridade” de uns sobre os outros.
No Brasil, por exemplo, os deputados federais e senadores instituíram para eles 90 dias de férias e para o povo 30 dias; instituíram para eles 15 salários por ano e para o povo 13 salários por ano; instituíram para eles foro privilegiado, para julgar seus crimes, e para o povo a Justiça Comum; instituíram prisões especiais para os que têm “curso superior” e para o povo a cadeia... Isso faz com que pessoas como o juiz Nicolau dos Santos (Lalau) —que causou um prejuízo de 190 milhões de reais aos cofres públicos—, tenha a mordomia de ficar “preso” em sua residência; um motorista de táxi que matou sua esposa —em dois anos e meio de processo— seja condenado a 25 anos de prisão (está preso) ao mesmo tempo em que um jornalista rico (Pimenta Neves), que matou sua namorada e é réu confesso—em 10 anos de processo—mesmo tendo sido condenado duas vezes, ainda permaneça solto...
 Algumas atitudes do governo federal do Brasil e de alguns grupos de combate ao racismo (deveriam se chamar: grupos de incentivo ao racismo), acabam por estimular ainda mais o preconceito e a divisão na sociedade.
Julgar que o negro e o índio não conseguem entrar sozinhos numa faculdade, e que por isso precisem de cotas do governo, é reconhecer que eles são inferiores e estimular o preconceito e o racismo.
A questão é tão grave e perigosa que um grupo de 34 intelectuais escreveu um livro contra a política de cotas do governo do PT e o famigerado Estatuto da Igualdade Racial. Divisões Perigosas: Políticas Raciais no Brasil Contemporâneo - Editora Record.
O que o Brasil precisa é de investimentos para melhorar a qualidade do ensino público, de mais escolas públicas e de ACESSO A TODOS que não possam pagar a faculdade e/ou pré-vestibulares sejam brancos, negros ou índios. Afinal, querer que o brasileiro—que é mestiço por natureza—prove que é negro, índio ou branco, beira o ridículo, além de ser muito perigoso, pois pode estimular o conflito e o revanchismo entre as pessoas... Perguntar às crianças qual a sua raça e cor no Censo Escolar de 2005 (onde menos de 10% responderam que são negros) como fez o Ministério da Educação do governo Lula—fato que não ocorria no país desde 1930, no início do nazismo— é outro incentivo ao preconceito e ao ódio racial que acaba estimulando ações de grupos neonazistas como os (carecas) skinheads...
Declarações como a que fez a ex-ministra “de combate ao racismo” do governo Lula— “...Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou...”. —constituem-se nos mesmos motivos de Hitler que levaram ao holocausto e à Segunda Guerra Mundial.
 
O homem precisa começar a ver o outro como uma extensão de si mesmo. No momento em que começar a desejar para o outro o mesmo que deseja para si próprio, o homem começará a perceber como é ridículo achar que alguém pode ser melhor ou pior apenas por causa da cor dos olhos ou da tonalidade do “bronzeado”...
 
*Jhorge Mariano é Jornalista e fotógrafo. Tem artigos e fotos publicados em livros, jornais e revistas nos Estados de São Paulo e Bahia.